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SIMBOLISMO - Alphonsus de Guimarães

terça-feira, 13 de abril de 2010

Fonte:
MOISÉS, Massaud. A literatura Brasileira através dos Textos. 2.ed.. São Paulo: Cultrix, 1973. p.318-324.
Texto proveniente de:
Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Anderson Gama - São José dos Campos/SP
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Alphonsus de Guimarães
Mineiro de Ouro Preto, Afonso Henriques da Costa Guimarães adotou o nome poético de Alphonsus de Guimaraens por acha-lo mais musical e, por essa razão, combinar melhor com a proposta simbolista da musicalidade dos versos. Aos dezesseis anos ele se apaixonou por sua prima Constança, filha do autor romântico Bernardo Guimarães (A Escrava Isaura). Com a morte prematura de Constança (14 anos), Alphonsus de Guimaraens passa a escrever poemas simbolistas tematizando a noiva morta e uma autocomiseração bastante intensa. Além dessas temáticas, fez muitos poemas religiosos em homenagem a Nossa Senhora, figura religiosa que substitui a paixão concreta, que transcendentaliza a mulher amada morta.
Principais Obras
• Septenário das Dores de Nossa Senhora (1889) – quarenta e nove poemas divididos em grupos de sete, homenageando cada uma das sete dores que Nossa Senhora teria sentido ao longo de sua vida.
• Dona Mística (1899)
• Kiriale (1902)

“Ossea Mea” (Meus Ossos ou Meu esqueleto), poema transcrito a seguir, exemplifica parte da poesia de Alphonsus de Guimaraens porque apresenta uma visão do sobrenatural, de uma realidade mística e porque mostra que o poeta vê muito além das aparências do mundo real. É interessante você observar o vocabulário claramente simbolista e a sinestesia que domina quase todos os versos.

Ossa Mea

I

Mãos de finada, aquelas mãos de neve,


De tons marfíneos, de ossatura rica,


Pairando no ar, num gesto brando e leve,


Que parece ordenar, mas que suplica.


Erguem-se ao longe como se as eleve


Alguém que ante os altares sacrifica:


Mãos que consagram, mãos que partem breve,


Mas cuja sombra nos meus olhos fica...


Mãos de esperança para as almas loucas,


Brumosas mãos que vêm brancas, distantes,


Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...


Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,


Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,


Cerrando os olhos das visões defuntas...
A obra poética de Alphonsus de Guimarães bate somente em três teclas: morte da amada, pena de si mesmo e religiosidade, porém, existem algumas exceções como o poema “Cabeça de Corvo” em que o poeta tematiza o próprio ato de escrever (metalinguagem). O tom do poema é de penumbra e de vaguidade próprias do Simbolismo, e lembra o autor romântico norte-americano Edgard Allan Poe em “The Raven” (O Corvo). Aliás, esse escritor americano é tido como o precursor do Simbolismo.


CABEÇA DE CORVO
Na mesa, quando em meio à noite lenta


Escrevo antes que o sono me adormeça,


Tenho o negro tinteiro que a cabeça


De um corvo representa.






A contempla-lo mudamente fico


E numa dor atroz mais me concentro:


E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,


Meto-lhe a pena pela goela adentro.






E, solitariamente, pouco a pouco,


Do bojo tiro a pena rasa em tinta ...


E a minha mão, que treme toda, pinta


Versos próprios de um louco.






E o aberto olhar vidrado da funesta


Ave que representa o meu tinteiro,


Vai-me seguindo a mão, que corre lesta,


Toda a tremer pelo papel inteiro.


Dizem-me todos que atirar eu devo


Trevas em fora este agourento corvo


Pois dele sangra o desespero torvo


Destes versos que escrevo.

O poema seguinte – “Ismália” – é certamente um dos mais populares de Alphonsus de Guimaraens e tematiza a loucura como uma forma de executar o que a louca mulher deseja: ir para a lua; então, ao ver o astro noturno refletido no mar, atira-se nele e ... morre.

Ismália
VII


Quando Ismália enlouqueceu,


Pôs-se na torre a sonhar...


Viu uma lua no céu,


Viu outra lua no mar.


No sonho em que se perdeu,


Banhou-se toda em luar...


Queria subir ao céu,


Queria descer ao mar...


E, no desvario seu,


Na torre pôs-se a cantar...


Estava perto do céu,


Estava longe do mar...


E como um anjo pendeu


As asas para voar...


Queria a lua do céu,


Queria a lua do mar...


As asas que Deus lhe deu


Ruflaram de par em par...


Sua alma subiu ao céu,


Seu corpo desceu ao mar...




As duas estrofes seguintes fazem parte do poema “A Catedral” em que Alphonsus de Guimaraens “descreve” uma catedral toda iluminada pelo sol e que, aos poucos, vai tomando cores escuras. O estribilho do poema são os sinos tocando a autocomiseração do poeta.


A CATEDRAL

Entre as brumas ao longe surge a aurora,


O hialino orvalho aos poucos se evapora,


Agoniza o arrebol.


A catedral ebúrnea do meu sonho


Aparece na paz do céu risonho


Toda branca de sol






E o sino canta em lúgubres responsus:


Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!


(...)


O céu é todo trevas; o vento uiva.


Do relâmpago a cabeleira ruiva


Vem açoitar o rosto meu.


E a catedral ebúrnea do meu sonho


Afunda-se no caos do céu medonho


Como um astro que já morreu.



Pulcra ut Luna

II

Celeste... É assim, divina, que te chamas.

Belo nome tu tens, Dona Celeste...

Que outro terias entre humanas damas,

________________________________________



Tu que embora na terra do céu vieste?

Celeste... E como tu és do céu não amas:

Forma imortal que o espírito reveste

De luz, não temes sol, não temes chamas,

Porque és sol, porque és luar, sendo celeste.

Incoercível como a melancolia,

Andas em tudo: o sol no poente vasto

Pede-te a mágoa do findar do dia.

E a lua, em meio à noite constelada,

Pede-te o luar indefinido e casto

Da tua palidez de hóstia sagrada.

Árias e cançoes
III
A suave castelã das horas mortas

Assoma à torre do castelo. As portas,

Que o rubro ocaso em onda ensangüentara,

Brilham do luar à Luz celeste e clara.

Como em órbitas de fatais caveiras

Olhos que fossem de defuntas freiras,

Os astros morrem pelo céu pressago...

São como círios a tombar num lago.

E o céu, diante de mim, todo escurece...

E eu nem sei de cor uma só prece!

Pobre Alma, que me queres, que me queres?

São assim todas, todas as mulheres.

Hirta e branca... Repousa a sua áurea cabeça

Numa almofada de cetim bordada em lírios.

Ei-la morta afinal como quem adormeça

Aqui para sofrer Além novos martírios.

De mãos postas, num sonho ausente, a sombra espessa

Do seu corpo escurece a luz dos quatro círios:

Ela faz-me pensar numa ancestral Condessa

Da Idade Média, morta em sagrados delírios.

Os poentes sepulcrais do extremo desengano

Vão enchendo de luto as paredes vazias,

E velam para sempre o seu olhar humano.

Expira, ao longe, o vento, e o luar, longinquamente,

Alveja, embalsamando as brancas agonias

Na sonolenta paz desta Câmara-ardente...

Terceira dor

IV

P. Sião que dorme ao luar.

Vozes diletas Modulam salmos de visões contritas...

________________________________________

E a sombra sacrossanta dos Profetas

Melancoliza o canto dos levitas.

As torres brancas, terminando em setas,

Onde velam, nas noites infinitas,

Mil guerreiros sombrios como ascetas,

Erguem ao Céu as cúpulas benditas.

As virgens de Israel as negras comas

Aromatizam com os ungüentos brancos

dos nigromantes de mortais aromas...

Jerusalém, em meio às Doze Portas,

Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos

Evoca ruínas de cidades mortas.

Cisnes Brancos

V

Cisnes brancos, cisnes brancos,
Porque viestes, se era tão tarde?

O sol não beija mais os flancos

Da montanha onde morre a tarde.

O cisnes brancos, dolorida

Minh’alma sente dores novas.

Cheguei à terra prometida:

É um deserto cheio de covas.

Voai para outras risonhas plagas,

Cisnes brancos! Sede felizes...

Deixai-me só com as minhas chagas,

E só com as minhas cicatrizes.

Venham as aves agoireiras,

De risada que esfria os ossos...

Minh’alma, cheia de caveiras,

Está branca de padre-nossos.

Queimando a carne como brasas,

Venham as tentações daninhas,

Que eu lhes porei, bem sob as asas,

A alma cheia de ladainhas.

O cisnes brancos, cisnes brancos,

Doce afago de alva plumagem!

Minh’alma morre aos solavancos

Nesta medonha carruagem...

VI

Quando chegaste, os violoncelos

Que andam no ar cantaram hinos.

Estrelaram-se todos os castelos,

E até nas nuvens repicaram sinos.

Foram-se as brancas horas sem rumo.

Tanto sonhadas! Ainda, ainda

Hoje os meus pobres versos perfumo

Com os beijos santos da tua vinda.

________________________________________



Quando te foste, estalaram cordas

Nos violoncelos e nas harpas...

E anjos disseram : – Não mais acordas,

Lírio nascido nas escarpas!

Sinos dobraram no céu e escuto

Dobres eternos na minha ermida.

E os pobres versos ainda hoje enluto

Com os beijos santos da despedida.

1 comentários:

Anônimo disse...

O que um bom post. Eu realmente gosto de ler esses tipos ou artigos. Eu não posso esperar para ver o que os outros têm a dizer.

 
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